Explorador Urbano

Bob Justiça“Urban Explorer” ou “Explorador Urbano”, para alguns são aquelas pessoas que não conseguem se libertar do conforto e comodidades da vida nas cidades. Para outros são pessoas aventurosas, que exploram os desafios e perigos das cidades. Tudo depende do ponto de vista, e depende também do quão profunda essa exploração vai ser.

Foto de Carlos Alexandre Pereira, “Bob Justiça”, na Av Paulista, em 2013.

Uma das primeiras pessoas que ouvi falar que se aventurava pelas cidades, foi o “Ubernauta”. Eduardo Fenianos, o “Urbenauta”, graduado em Comunicação Social e Direito, e escritor de livros que contam suas aventuras. A maior delas foi uma viagem pela cidade de São Paulo, foram 120 dias comendo e dormindo na casa de quem encontrasse no caminho, sem voltar para casa.

Urbenauta - commoradoresdafaveladoburacodosaponocapaoredondoApesar de achar a experiência do ubernauta bastante interessante, acho radical de mais para o meu gosto. Para mim, do ponto de vista de um fotógrafo interessado pela exploração de cidades, não faz mal nenhum voltar para casa ou hotel todo dia, mesmo que seja para dormir apenas algumas horas e já sair bem cedo no dia seguinte.

Na foto ao lado o Urbenauta (a direita, de chapéu), com moradores da favela do buraco do sapo no capão redondo, em São Paulo.

A fotografia urbana ou de rua, que é o estilo do fotógrafo explorador urbano, não é nova, nem mesmo do século passado. No início a fotografia era quase que exclusivamente para retratos. Aos poucos, fotógrafos aventureiros partiram em viagens para países distantes e miravam suas lentes para paisagens diferentes e desconhecidas. Outros, cansados de retratar pessoas, começaram a percorrer as ruas e caminhos de suas cidades carregando seus equipamentos monstruosos a fim de fazer fotografias das primeiras paisagens urbanas.

Militão Augusto de Azevedo - Rua da Quitanda - 1887Fotografia de Militão Augusto de Azevedo, Rua da Quitanda, 1887,

Estes sim foram os primeiros exploradores urbanos da fotografia. Posso citar como exemplo Militão Augusto de Azevedo, um dos primeiros fotógrafos brasileiros da segunda metade do século XIX a retratar a paisagem urbana e a vida social da cidade de São Paulo. Mas devido principalmente ao tamanho e peso dos equipamentos fotográficos desta era, a fotografia urbana não era tão exploratória, mas principalmente documental. Tem diferença? Não sei.

Bresson - PAR42706 - Paris - 1956 - Square du Vert-Galant and Pont-Neuf bridge over the SeineCom a invenção de equipamentos portáteis, como a Leica I, tornou-se possível a verdadeira exploração urbana fotográfica. Mestres da fotografia como André Kertész e Henri Cartier-Bresson, munidos de suas câmeras portáteis, andavam pelas cidades registrando momentos da vida das pessoas e das próprias cidades, criando imagens icônicas a partir do cotidiano urbano.

Foto de Henri Cartier-Bresson, Paris, 1956.

Uma das fotógrafas urbanas mais marcantes da segunda metade do século XX foi, curiosamente, descoberta apenas em 2007, chama-se Vivian Maier. Uma americana que na sua juventude morou na Europa e mais tarde voltou para os EUA, estabelecendo-se em Nova York, onde trabalhava como babá. Em suas horas de folga, Vivian percorria as ruas da cidade de Nova York com sua câmera, retratando pessoas, paisagens urbanas e a vida social da cidade. Ela nunca divulgou seu trabalho como fotógrafa e muitos de seus negativos aparentemente nunca tinham sido revelados. Seu acervo de mais de 100 mil negativos foi encontrado por acaso em um leilão de objetos abandonados em depósitos, muito comuns nos EUA.

Undated, New York, NYVivian Maier merece um artigo por si só, e certamente assim o farei em breve. Para mim ela é a personificação do verdadeiro fotógrafo explorador urbano, motivado exclusivamente pela sua dedicação a fotografia.

Foto de Vivian Maier, Nova York, data desconhecida.

Eu não sei se por influência destes grandes mestres, Bresson principalmente, ou pela minha preferência pessoal pelo P&B, o fato é que não consigo ver a fotografia urbana de outra forma que não seja monocromática. Primeiro pensei em filosofar um pouco sobre esse assunto, mas depois cheguei a conclusão que as cidades são tão poluídas visualmente, que a redução das cores para os tons de cinza, ajuda a reduzir também esse excesso de informação visual. Gosto das coisas simples, minimalistas.

Carlos Alexandre Pereira - Samosas - Londres - 2013Carlos Alexandre Pereira, Samosas, Londres, 2013.

Hoje em dia a fotografia de rua, ou urbana, é bastante difundida no mundo inteiro. São tantos exemplos ótimos de fotógrafos deste estilo que cobriria um livro apenas para citar todos eles. Por isso vou mencionar apenas um fotógrafo brasileiros da atualidade que se dedica a esse estilo e desenvolve um trabalho sensacional.

Tuca Vieira - Foto de Rua n3Tuca Vieira (autor da foto ao lado) se define como um fotógrafo independente que desenvolve projetos envolvendo cidade, paisagem urbana, arquitetura e urbanismo. Coincidentemente, na seção em seu website que ele dedica a fotografias de rua, apenas fotos P&B. Talvez eu não esteja sozinho em minhas preferências. Mas não são apenas as fotos desta seção que podemos classificar como explorações urbanas. Tem muitas fotos de São Paulo, Berlim e diversos lugares do mundo, mostrando visões interessantes de arquitetura, paisagens urbanas e a vida social das cidades.

Tuca Vieira - Berlim n19Recentemente, Tuca foi entrevistado pela revista Digital Photographer Brasil (Ed. 30), onde ele contou sua preferência pela fotografia noturna durante sua passagem por Berlim, o que possibilitou o registro de locais normalmente cheios de pessoas, totalmente vazios. Não vou me estender muito neste tópico, porque assim como Bresson e a Vivian, Tuca também merece um artigo totalmente dedicado ao seu trabalho.

Tuca Vieira, Berlim.

Quis cita-lo porque essa preferência pela fotografia noturna, e sua justificativa, traz a tona uma das várias possibilidades de exploração urbana fotográfica, a fotografia noturna. As possibilidades de criação de imagens nessas condições são enormes. Bem feitas e produzidas, essas imagens tem potencial para serem marcantes, basta ver algumas das imagens feitas por Tuca em Berlim.

Seja ela monocromática ou colorida, a fotografia urbana é muito ampla. Podemos focar nossas lentes nas pessoas que passam; nas cenas urbanas que se desenvolvem todos os dias e de certa forma, nunca se repetem; podemos nos concentrar na arquitetura; nos estilos de construção e planejamento urbano; enfim, são diversas as opções dentro das cidades e cada uma dessas opções tem seus próprios desafios.

Av Paulista 1Carlos Alexandre Pereira, Av Paulista 1, São Paulo, 2013.

Focar suas lentes em pessoas pode ser intimidador, tanto para o fotógrafo quanto para o fotografado. É quase uma arte saber fotografar pessoas estranhas sem causar conflitos ou situações constrangedoras. Qual a melhor técnica, se aproximar das pessoas, conversar com elas e obter autorização antes de tirar suas fotos ou ficar a distância, usar uma tele e tentar ser o mais discreto possível? Cada um defende sua opção, mas acho que na verdade, cada estratégia tem sua aplicação, dependendo do local e das pessoas. O ideal é adquirir experiência para saber interpretar as situações e tomar as decisões adequadas.

Carlos Alexandre Pereira - Kings Cross Station - Londres - 2013Carlos Alexandre Pereira, King’s Cross Station, Londres, 2013.

Fotografia de arquitetura é aparentemente fácil; basta usar uma grande angular e tirar uma foto do prédio inteiro, certo? Errado. Muitas vezes fotos de pequenos detalhes da construção são muito mais interessantes do que uma foto panorâmica do prédio. Postes de eletricidade, semáforos, pessoas, carros, ônibus, cartazes; as cidades são poluídas não apenas por gases tóxicos mas também por excesso de informação visual; quase nunca conseguimos um ângulo onde o objeto a ser fotografado não está encoberto por elementos que “estragam” a foto.

Carlos Alexandre Pereira - Night Ride - Paris - 2013Carlos Alexandre Pereira, Night Ride, Paris, 2013.

E quanto a segurança. Por experiência própria posso dizer que o melhor de fotografar na Europa não é a abundância de locais interessantes para clicar, mas sim a tranquilidade de andar a qualquer hora do dia ou noite e poder usar sua DSLR sem medo. Ok, não é assim tão seguro, mas com certeza é possível com um pouco de cuidado.

Aqui no Brasil, em qualquer cidade grande, principalmente lugares maravilhosos para fotografar como São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília, você precisa pensar duas vezes antes de sair com sua câmera seja ela qual for, imagine então andar a esmo pelo centro destas cidades, mochila nas costas, câmera na cara e olho no visor, durante a noite? O resultado é óbvio.

Carlos Alexandre Pereira - Inside Edinburgh - Edinburgh - 2013É preciso muito cuidado, como planejar a saída fotográfica, sair em grupo, contratar guia e segurança, ficar atento, enfim, várias atitudes que reduzem o risco de acontecer problemas e diminuem sua liberdade de ação e criatividade.

Carlos Alexandre Pereira, Inside Edinburgh, Edinburgh, 2013.

Exploração urbana fotográfica, uma atividade muito interessante, que proporciona oportunidades únicas de conhecer as cidades de uma forma íntima, produzir imagens marcantes e ter a sensação de estar participando de algo maior, que é o registro da vida e história de uma cidade.

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